Uma questão que se coloca a muita gente, nesta altura do ano, é como desejar as Boas Festas e como contribuir para o optimismo colectivo desta quadra natalícia sem estar a parecer hipócrita ou falso.
Perante o ambiente geral de "crise" e de alguma falta de esperança, vivendo ou antevendo dificuldades, quase se torna penoso e culpabilizador pensar em Natal. Escrever que se adora o Natal, porventura pelas excelentes recordações de infância, o ritual da árvore ou do presépio, ou a distribuição de presentes com ou sem Missa do Galo, começa a ser constrangedor, porque as filhozes e rabanadas não ligam com as campanhas do Banco Alimentar, e qualquer presente que se compre traz na factura o rótulo de "consumismo".
Mas, chamem-nos ingénuos, é fundamental acreditar ainda que as pessoas são intrinsecamente boas e que a Humanidade caminha irreversivelmente para estádios de desenvolvimento cada vez melhores. E o Natal surge como uma clara demonstração do que é possível... quando se quer.
Há quem desdenhe de certas coisas, como o envio de cartões de Natal (mesmo que pareçam – notem, «pareçam») despersonalizados quando remetidos a partir de uma lista de e-mails. Mas ainda que seja escrever um só texto e fazer send to undisclosed recipient, isso representa um momento em que pensamos em alguém. Mesmo que na lista de cem ou quinhentas pessoas haja apenas uma na nossa mente, já é uma. E uma pessoa é sempre uma importância, e o tempo que usamos a fazer isso poderia ser gasto noutra coisa qualquer – logo representa uma opção, seja apenas para limparmos qualquer consciência ou cumprirmos calendário. Claro que escrever um cartão e enviar pelos CTT, «à maneira antiga», a pensar no outro como pessoa singular, e de «outro em outro» rever as nossas amizades, afectos e carinhos, terá provavelmente um significado mais amplo, mas não reduzamos as intenções dos outros a meros estertores de um mundo artificial. Não é verdade.
Compram-se muitos presentes. Isso, sim, é verdade. A maioria das crianças, então, recebe para lá do limite. Também é verdade. Mas mesmo que possamos ver nesse gesto complexos de culpa, compensações do tempo que não lhes damos (até damos, muito mais do que as gerações precedentes), indulgências pelas nossas dificuldades em as educar (como se fossemos perfeitos e a nossa tarefa a dos deuses), o que é certo é que pensamos nelas. Nelas e nas pessoas a quem damos um presente, mesmo que o mais estandardizado e «despersonalizado». Despersonalizado, dirão, mas leva dois nomes: o de quem dá e o de quem recebe. O que personaliza, duplamente. Não será isso importante?
Visitamos amigos, telefonamos a outros, enviamos SMS (é, os velhos do Restelo dizem que é a coisa mais instantânea e banal, que é uma negação da relação pessoal, etc., etc. E até acentuam que já se escreve «q» com «k».... E isso importa?) Mesmo que o pensamento seja fulgurante, mesmo que quem recebe ouça o tim-tim da mensagem chegada e até por vezes nem perceba quem a enviou, não é bom saber que alguém (até mesmo por engano!) pensou em nós por um milissegundo?
As ruas têm luzes e as montras Pais Natais, logo desde Outubro. «Estão à cata do 13º mês...» – comentamos. E não é mentira. Algum dos Leitores, se fosse comerciante, gastaria dinheiro em iluminações se não fosse para chamar pessoas à vossa loja? Mas ainda bem que há luzes nas avenidas, e só é pena que haja pouca música nas ruas, como em algumas cidades europeias. Lá chegaremos.
O bolo-rei vende-se em Agosto? Talvez esse facto sirva para pensarmos no desadequado que isso é para nós – o que mostra que ainda entendemos as tradições e as coisas no seu devido lugar, e que o Natal representa algo de muito especial na cabeça de cada um.
Não devemos ser profetas da desgraça e está a faltar no nosso País uma injecção de crença, para além dos episódios de auto-estima futebolística. É bom acreditar nas pessoas. É bom ensinar às crianças que é bom acreditar nas pessoas, especialmente naquelas que as rodeiam. O mundo é tendencialmente bom. E os cartões de Boas Festas, os sorrisos dos que se entrecruzam nas ruas, as iluminações, os concertos nas Igrejas, os presentes e até a «sempre-presente» Música no Coração na televisão, no dia 25, têm um significado que nenhum bota-abaixo pode derrubar.
Não nos deve preocupar o Natal, nem porventura o rumo que o Natal toma, mas sim, isso sim, aqueles a quem ninguém envia um SMS porque nem sequer têm telemóvel, aqueles que não recebem uma visita de um amigo ou de um familiar porque vegetam num lar, mesmo que os profissionais se esforcem por tentar criar uma atmosfera natalícia, ou as crianças que sofrem abusos, maus-tratos, as que são espezinhadas e humilhadas, e para quem o Natal não existe.
Deve preocupar-nos, sim, que a época natalícia (e o Ano Novo) sejam entendidos como um momento óptimo e crítico para uma reflexão intensa e imensa, que nos produza melhorias e acertos, e que nos faça uma re-valorização do que somos e de quem somos. Bons, porque temos amigos e pessoas que nos amam e a quem amamos, mas menos do que podemos ser, porque muito há para fazer, e não temos feito tudo o que devíamos. Ou que o material possa, alguma vez, substituir o afectivo e o espiritual.
Se o pensamento do Natal servir, mesmo que com compras impostas pela publicidade, mesmo que com rituais estandardizados, para que olhemos para nós próprios e pra os nossos filhos, e repensemos quem somos e quem desejamos ser, quem eles são e quem desejaríamos que fossem, e ponderemos como colmatar o hiato entre as duas coisas, então o Natal cumpre a sua função.
Boas Festas para todos!