A propósito da malcriação que muitas pessoas exibem, designadamente as crianças nas salas de aula, cremos que é uma questão que merece ser abordada e debatida.
Todos sabemos de casos de alunos que se portam mal, deliberada e ostensivamente, ultrapassando as fronteiras do admissível e até da desvergonha, e gabando-se disso, pensando sair em alta. Qualquer aprendiz de psicólogo explicará o fenómeno e até pode adiantar causas familiares e outras, baixa auto-estima, narcisismo, arrogância... enfim, um sem-número de razões.
Os alunos que desafiam (como dizemos, para lá do admissível e do que é normal nestas idades) têm (ou julgam ter) a seu favor o medo que inspiram nos outros e o que acaba por ser a protecção do "sistema", que olha com muita complacência (demasiada, na nossa opinião) estes malcriadões, muitos deles que nem sequer podem argumentar com "um lar desestruturado" ou outra coisa qualquer, bem pelo contrário, são fruto dos excessos de mordomias, favores e elitismo. Malcriação pura e simples, e sensação de omnipotência e de impunidade, são as razões. Os outros alunos sentem-se, muitas vezes, atraídos por este modus vivendi, sobretudo se vêem que não há sanções ou que estas são inconsequentes e a sua Ética fica numa enorme ambivalência.
É bom que não fiquem, e é bom que, professores e escola, chamem os pais das criancinhas, para lá de punir estas (trabalhos cívicos, como varrer as folhas do pátio ou fazer pequenos serviços seria uma óptima ideia, em vez de irem para o recreio mais cedo), e lhes façam ver que a Escola Pública não é a latrina onde estes meninos podem fazer as suas necessidades, designadamente descarregar a sua parte má.
Há dias foi noticiado que uma universidade decidiu abrir um inquérito (entetanto já arquivado, mas aberto na mesma) a um estudante que chamou filho da puta ao primeiro-ministro. Como refere o jornalista Henrique Monteiro, "já todos nós chamámos filho da puta a alguém que não é, assim como chamámos a pessoas que o são. O problema não é a gravidade do insulto, ou se o primeiro-ministro ficou ofendido, ou até se o é; o problema é se uma instituição universitária deve deixar passar sem reparo o facto de um estudante seu chamar publicamente filho da puta a uma pessoa que visita essa instituição. É um problema de educação". E pense-se o que se pensar do PM, não se podem fazer concessões à malcriação consoante a nossa simpatia ou antipatia relativamente à pessoa a quem o insulto ou a agressão é dirigida.
E quando se fala que, agir, é voltar aos fantasmas do "antigamente, Henrique Monteiro relembra: "Alberto Martins, actual deputado e, em 1962, presidente da Associação Académica de Coimbra, dirigiu-se a Américo Thomaz da seguinte forma: "Sua Ex.ª, Senhor Presidente da República, dá-me licença que use da palavra nesta cerimónia em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra?". A palavra foi negada e houve uma carga policial. Não nos refugiemos, pois, na repressão ou na vitimização dos alunos. Naquela altura, houve uma manifestação intolerável ditatorial e indesculpável de quem reprimiu. Agora, os tempos são de democracia, e um malcriado, tenha a idade que tiver, é sempre um malcriado. E num Estado de Direito e numa Escola Pública que assenta num Estado de Direito, as malcriações não podem passar incólumes porque lesam o bem-estar dos restantes cidadãos. Que, nas escolas privadas, isso se faça, não é problema nosso. Nas públicas, como a São João de Deus e o Agrupamento, é um problema da cidadania.
PS. de qualquer modo, deverão ser sempre os adultos a tentar perceber o que se passou e a estabelecerem regras, sem pressionar as outras crianças a serem delatores ou "colaboradores", salvo os casos em que são vítimas e em que devem, sim, comunicar os factos aos professores e auxiliares.









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