É assim que os nossos filhos descrevem a situação: "Faz um pagam todos" ou, noutra versão, "Paga um, pagam todos".
Quer isto dizer que, quando algo sucede na sala de aula ou no recreio, e caso o prevaricador não seja identificado ou o professor não esteja para perder tempo com esse processo de responsabilização, a turma toda fica de castigo ou tem uma nota pior, como acontece em algumas AECs.
Devo dizer que acho que, sendo a escola um espaço para formar cidadãos, qualquer injustiça, cometida por quem quer que seja, é revoltante e anti-pedagógica.
Que sistema preferimos: o que pode deixar um criminoso em liberdade ou o que pode colocar um inocente na cadeia? É disso que estamos a tratar. Os que nada fizeram (assisti recentemente a um caso em que um aluno que até tinha faltado por doença no dia em que supostamente algo tinha acontecido, ficou de castigo sem sequer saber porquê), sentir-se-ão injustiçados e com vontade de, então sim, também se portarem mal, dado que o resultado é o mesmo.
Compete aos professores e auxiliares resolverem as situações identificando quem prevaricou. Se não se conseguir provar, então paciência - poderão fazer um "discurso moralizador" e apelar ao próprio que se identifique, dado que "a verdade liberta", mas não aplicar castigos ou restrições a toda a turma.
A ideia de que isto convidaria os alunos a delatar os colegas que fizeram asneira é perversa, porque não compete às crianças serem "bufos" dos amigos e colegas, mas sim aos professores identificarem quem se porta mal. Adultos são adultos, crianças são crianças. Uma coísa é um aluno referir ao professor uma situação real com outro colega, outra é apontar a dedo quem fez isto ou aquilo. Delatar os colegas para "se safar" é estimular a falta de solidariedade e de amizade.
Uma escola no Porto criou recentemente patrulhas de alunos, com uma camisola a dizer PSP (sigla que, neste caso, tem a ver com o nome da escola), que andam pelo recreio a identificar quem se porta mal e os nomes desses, depois, são afixados num painel, na escola. Onde é que queremos chegar com tudo isto? A escola, repito, deve ser um polo de ensino de cidadania. Não acredito que estes métodos sirvam para isso, muito pelo contrário...
Mário Cordeiro












