terça-feira, 15 de maio de 2012

faz um, pagam todos? - à atenção dos professores


É assim que os nossos filhos descrevem a situação: "Faz um pagam todos" ou, noutra versão, "Paga um, pagam todos".

Quer isto dizer que, quando algo sucede na sala de aula ou no recreio, e caso o prevaricador não seja identificado ou o professor não esteja para perder tempo com esse processo de responsabilização, a turma toda fica de castigo ou tem uma nota pior, como acontece em algumas AECs.

Devo dizer que acho que, sendo a escola um espaço para formar cidadãos, qualquer injustiça, cometida por quem quer que seja, é revoltante e anti-pedagógica.

Que sistema preferimos: o que pode deixar um criminoso em liberdade ou o que pode colocar um inocente na cadeia? É disso que estamos a tratar. Os que nada fizeram (assisti recentemente a um caso em que um aluno que até tinha faltado por doença no dia em que supostamente algo tinha acontecido, ficou de castigo sem sequer saber porquê), sentir-se-ão injustiçados e com vontade de, então sim, também se portarem mal, dado que o resultado é o mesmo.

Compete aos professores e auxiliares resolverem as situações identificando quem prevaricou. Se não se conseguir provar, então paciência - poderão fazer um "discurso moralizador" e apelar ao próprio que se identifique, dado que "a verdade liberta", mas não aplicar castigos ou restrições a toda a turma.

A ideia de que isto convidaria os alunos a delatar os colegas que fizeram asneira é perversa, porque não compete às crianças serem "bufos" dos amigos e colegas, mas sim aos professores identificarem quem se porta mal. Adultos são adultos, crianças são crianças. Uma coísa é um aluno referir ao professor uma situação real com outro colega, outra é apontar a dedo quem fez isto ou aquilo. Delatar os colegas para "se safar" é estimular a falta de solidariedade e de amizade.

Uma escola no Porto criou recentemente patrulhas de alunos, com uma camisola a dizer PSP (sigla que, neste caso, tem a ver com o nome da escola), que andam pelo recreio a identificar quem se porta mal e os nomes desses, depois, são afixados num painel, na escola. Onde é que queremos chegar com tudo isto? A escola, repito, deve ser um polo de ensino de cidadania. Não acredito que estes métodos sirvam para isso, muito pelo contrário...

Mário Cordeiro

2 comentários:

Anónimo disse...

Caro Mário Cordeiro:
É triste quando em todo o texto o Sr apenas refere e passo a citar "como acontece em algumas AECs"!, como sendo estas a causa dos problemas da escola.
Sendo V. Exª, com toda a certeza, educando de um aluno desta escola, experimente passar no horário curricular e veja se é apenas nas AEC ( o eterno parente pobre) que isto sucede! Meu caro, não se trata de AEC ou não AEC, trata-se apenas de (in)competência por parte de alguns Professores para resolverem questões básicas de disciplina.
Apenas mais uma nota: os alunos com comportamentos desajustados nas AEC e pasme-se...são exactamente os mesmos que evidenciam esse comportamento no tempo curricular! Neste caso caro Mário...por todos, paga apenas um...as AEC!
Cumprimentos e continuação de bom trabalho

Mário disse...

Olá... (desculpe, não sei o seu nome porque preferiu o anonimato - eu, por ser um texto eventualmente "ideológico", assinei, mas adiante).
Não crucifiquei as AECs - longe de mim, dado que, pretencendo à Direcção da APEE, tenho contribuído, na medida do possível, para que elas se realizem e se diversifiquem. Mais, como responsável pelo Blogue, tenho dado notícia do que por lá vai acontecendo.
O "paga um, paga todos", é regra de alguns professores, quer das AECs, quer dos titulares. Mas o que gostava de saber, da sua parte, é se concorda com este esquema e esta filosofia. Eu, não. Discordo totalmente. Não vejo que sentimento de justiça e de cidadania se possa estabelecer quando o prevaricador sai "por cima" e quem se portou eticamente bem sai penalizado. Apenas isso. Quanto às AECs, estamos conevrsados, espero. Que fique claro que as considero como uma das grandes mais-valias do nosso Sistema Educativo.