Grassa pelo mundo uma verdadeira "epidemia" de hiperactividade. Mais, de hiperactividade e déficite de atenção. Mas será que é verdadeiramente assim? Há cada vez mais crianças diagnosticadas com alterações destas duas vertentes, afinal interligadas, e que se relacionam com as chamadas "síndromas disléxicas" e com as "síndromas do espectro do autismo". Tanto diagnóstico em tão pouco tempo, diríamos. Mas é o que observamos um pouco por toda a parte - os diagnósticos, porque quiçá não tanto as crianças com estas situações.
A vontade de resolver tudo num minuto e de responder às questões complexas com soluções fáceis, leva a que as perturbações do comportamento escolar, nomeadamente, sejam muitas vezes "resolvidas" com o auxílio de medicamentos "para a atenção". Não é que não possam ser necessários, em alguns casos, mas ignorar que o mesmo ser humano de há milhares de anos tem de enfrentar mundos completamente diferentes, com um aumento exponencial de estímulos (alguns irresistíveis) e sobretudo de origem artificial, e pensar que as crianças de hoje têm de "funcionar" da mesma forma do que há décadas, é um erro crasso. O animal é o mesmo, o ambiente não.
Por vezes não é fácil distinguir uma agitação ou irrequietude de uma hiperactividade patológica. Mas uma coisa é esta situação - devida a anomalias nos mediadores cerebrais - outra será a desatenção normal de quem acorda cansado, vive cansado, hiperestimulado, com matérias por vezes desinteressantes para o aluno (por muito interesse que possam ter na construção do edifício educativo da criança), professores também eles cansados e pouco tolerantes para as irrequietudes infantis, e que ainda leva, em alguns casos, TPCs para casa, onde chega à hora de tomar banho e de jantar, para no dia a seguir começar tudo de novo. Para a criança, para os pais e para os professores.
A "hiperactividade" das crianças é, quase sempre, uma mistura de cansaço, stresse, má educação e disfunção familiar, associada a ambientes hiperestimulantes e que sobrecarregam o cérebro da criança com "informação-lixo", seja um carro a buzinar na rua, sejam os reflexos do sol nos vidros da aula ou as risadas dos colegas no corredor.
Temos de pensar este assunto com calma e debatê-lo, antes que os medicamentos "para a atenção" (nos idosos será os medicamentos "para a tensão"), tomem conta do universo infantil, rotulando as crianças, tendo efeitos colaterais, sendo caros e, também, desresponsabilizando os estudantes que encontram aí um bom alibi para os seus fracassos decorrentes de preguiça e falta de empenho, estudo e brio, e desculpabilizando os pais que não acompanham os filhos, pensando ainda que a escola é que "induca".


Sem comentários:
Enviar um comentário