segunda-feira, 24 de outubro de 2011

o valor da preguiça...


Na Antiguidade, trabalhar era sinónimo de servidão, depois de centenas e centenas de milhar de anos em que o ser humano tinha de trabalhar todos os dias, para assegurar a sobrevivência. A capacidade defensiva e de armazenamento de alimentos e de água, deu uma "folga" que, entre muitas outras coisas, permitiu desenvolver aspectos até aí atabafados pelas circunstâncias do dia-a-dia, como o lazer, a cultura, as artes e ofícios, a educação ou o pensamento, expresso por exemplo na filosofia e na literatura. A preguiça era, então, um valor, paralelo ao trabalho e à actividade.

Actualmente, o dolce far niente deixou de ser um bem "cotado na bolsa" e qualquer momento de inactividade é considerado um mal: ou expressa doença ou traduz parasitismo, inoperância ou ineficácia. Deixámos de saber conjugar o verbo "estar". E em relação às crianças, então, ainda somos mais "ferozes".

As crianças trabalham muito. Muito mesmo. Felizmente, na nossa Escola, os professores titulares entendem o que são crianças e não esmagam o seu tempo de lazer, repouso ou preguiça com trabalhos de casa desmesurados, como se vê fazer em tantas escolas. Chegámos até ao ponto de os "tempos livres" terem deixado de ser livres e passarem a ser "ocupados". E isto faz mal. Muito mal. Porque se nos retiram todos os graus de liberdade, entramos em espiral adrenalínica e ficamos sem endorfinas. Resultado: a agressividade aumenta, o mal-estar idem, dorme-se pior e aprende-se menos.

É, pois, fundamental dar valor à preguiça. É verdade. à preguiça boa, ou seja, àquela que permite distender depois de um dia laborioso, que permite "respirar" e sentir que, apesar de tudo, somos senhores do nosso destino. Para as crianças, esse sentimento e a sua aprendizagem e desenvolvimento são essenciais.

A preguiça NÃO é a mãe de todos os vícios. O que é, é o encostar-se a outrém, é o não trabalhar, é o parasitismo crónico, o ser-se aproveitador e explorador do trabalho dos outros. Mas estes defeitos (de carácter e sociais) não são sinónimos de momentos de preguiça... os romanos tinham o otium e o labor como actividades complementares. Cremos que andamos todos a precisar disso...

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